Ser um astrônomo amador não é fácil. Acho que posso dizer que sou um “astrônomo amador amador amador”, mas já enfrento algumas das dificuldades de manter este hobby em uma capital.
Antes de mais nada, moro em Curitiba, uma cidade que tem fama de clima ruim e pessoas fechadas. Longe de mim querer confirmar ou desvendar qualquer mito, mas posso descrever minhas experiências como hobista principiante: se você gosta de astronomia, Curitiba é um saco. Se você mora em apartamento, seus problemas duplicaram. Se o apartamento é pequeno, triplicaram.
O clima realmente não ajuda. Já aconteceu de eu olhar para um céu limpo, cheio de constelações e, uma hora depois, o céu estar nublado e feio. As três últimas reuniões públicas do CACEP que eu faltei, não renderam observações. Já o frio, apesar de ser um fator desanimador, pode ser superado com algum casaco e boné.
O que não acontece com os vizinhos de um condomínio. Morar em apartamento sempre foi a minha vida. Acho prático e seguro. Mas se você quer observar as estrelas com um binóculo ou telescópio, pode acabar ficando com a fama de voyeur. Esta fama pode piorar se você fizer estas observações da janela do seu apartamento e com a luz do cômodo apagada.
Manter o telescópio montado dentro de um quarto minúsculo, mesmo sendo um pequeno refrator de 60mm, também é uma prova de paciência. Para abrir uma gaveta tenho que mudar ele de lugar e para usar o computador tenho que voltar ele para o lugar de onde tirei. E Assim caminha a minha vida de “astrônomo amador amador amador”.
Se no Brasil já é difícil comprar um telescópio ou um binóculo bom a um preço acessível, você vai ter que trabalhar dobrado ou triplicado se quiser se aventurar com astrofotografia, pois os equipamentos são bem mais caros.
Lendo a edição de março da Wired, esbarrei em um pequeno review de quatro telescópios virtuais, sendo três deles gratuitos. Como parecia uma boa forma de superar todas essas “dificuldades” e de quebra obter boas fotos, resolvi testar dois deles.
O primeiro foi o MicroObservatory. Com telescópios localizados em Cambridge, Massachusets, e Amado, Arizona, eles entregam a sua foto, um GIF preto e branco de 650×500 pixels, em alguns dias.
A minha primeira tentativa de fotografar as Plêiades (M45) foi um fracasso:
E a segunda tentativa foi ainda pior:
Mas finalmente acertei o tempo de exposição ao fotografar a NGC 4013:
Teoricamente o site não deixa você escolher um tempo de exposição incorreto, mas não foi bem o que eu percebi na prática. Outro ponto meio chato do MicroObservatory é que a lista de astros que você pode escolher para fotografar não é muito grande e se resume aos principais. Bem diferente do Bradford Robotic Telescope, que possui uma lista enorme de opções para serem escolhidas.
Além do corpo celeste que você deseja, é possível escolher qual câmera será usada (galaxy ou cluster), o tempo de exposição e quais filtros serão aplicados na sua fotografia. Para usar o serviço basta se registrar (gratuitamente) e aguardar alguns dias (ou semanas) pela sua foto.
Minha primeira requisição (de novo as benditas Plêiades) foi enviada no dia primeiro de julho e até hoje não chegou. A segunda demorou quatro dias para ficar pronta. Pedi para fotografar o planeta Júpiter, facilmente identificável nas noites deste mês:
Eu ainda não entendi esta foto, não sei qual é a causa da anomalia apresentada no planeta e suas luas. Usei a câmera galaxy com dois segundos de exposição e pedi para não ser aplicado nenhum filtro na imagem. Se alguém souber explicar porque a foto saiu assim, eu agradeço.
Depois de ver o resultado pedi uma segunda foto de Júpiter, mas ainda estou esperando por ela. Desta vez optei pela câmera cluster, quatro segundos de exposição e clear filter. Quando ficar pronta, posto aqui o resultado.
Os outros dois telescópios do artigo eu não pude testar. O Slooh custa cerca de 50 dólares anuais e o Seeing in the Dark parece ser exclusivo para professores e alunos.
Um telescópio virtual está longe de ter a graça de ficar no frio tentando focalizar algo no seu pequeno refrator, mas é uma alternativa divertida para dias preguiçosos e nublados.
Atualização: Só porque eu disse que o Seeing in the Dark não tinha sido possível testar, recebi agora duas fotos que pedi da M45 em 30 de junho. E o melhor, o operador teve o cuidado de escrever uma explicação sobre elas:
Thank you very much for using the Seeing in the Dark Internet Telescope (SiDInT). The data for your requested image, M45, has been collected and processed to produce the image that is attached to this e-mail! You will find two images attached. The greyscale image is the one I took using SiDInT. The color version is image I made from a smaller telescope. Your image is a much smaller field of view. This is usually the case with large telescopes. Can you figure out in my color image where your field is? As you can see, for your image I took a picture of one star (Merope) and the wisps of gas and dust that show up. These wisps are actually in the foreground of the stars.
Unfortunately, your image also shows the “beams” of scattered light from stars outside the field. Note that in the color picture most of the gas and dust appears blue. This is because the gas/dust is not glowing. Instead it is scattering light- much in the same way it happens in our atmosphere to give us a bright blue sky!
I hope you enjoy the images. If you wish, you are welcome to request another image of some far-away place through the website.
Your friendly telescope operator, Adam Block